Entrevistas e reportagens com especialistas sobre as novas pesquisas e descobertas na área da saúde, controle de epidemias e políticas sanitárias.
A equipe do cientista húngaro Dezső Németh, do Centro de Pesquisas em Neurociências de Lyon, na França, mostrou que as distrações pontuais, que surgem enquanto estamos ocupados, podem ser úteis na aquisição de certas habilidades, como aprender um novo instrumento ou idioma.
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Estudos mostram que os seres humanos passam entre 30% e 50% do tempo divagando. Nessas horas, nossa atenção desvia do ambiente e da atividade que estamos realizando e criam “vida própria”. “Agora, por exemplo, durante a entrevista, você está falando comigo e me ouvindo, mas ainda assim, provavelmente está pensando em outras coisas que não estão relacionadas com a nossa conversa”, explicou o neurocientista Dezső Németh à RFI Brasil.
Durante a execução de uma tarefa, mesmo se estamos totalmente concentrados, há momentos em que desligamos e nossos pensamentos se desconectam do que estamos fazendo. Os cientistas chamam esses períodos de “vagabundagem mental”, ou mind wondering, em inglês.
“Durante cerca de 50 anos, a Ciência mostrou que este estado prejudicava a cognição, porque afetava a atenção”, diz o neurocientista. Os estudos mostraram durante décadas, ressalta, que esses momentos de distração poderiam afetar a memória de trabalho, um componente essencial da função executiva no cérebro. Ela é responsável pelo armazenamento temporário da informação pela memória de curto prazo e sua manipulação verbal ou visual.
“Por exemplo, na escola, os alunos devem ouvir o que o professor está dizendo. Mas se estão no mundo da Lua, isso pode ser visto como um problema, porque não estão prestando atenção. Talvez por essa razão, não poderão executar a tarefa perfeitamente”, exemplifica.
Outras pesquisas realizadas ao longo das últimas décadas, diz o cientista húngaro, comprovaram que esses momentos de distração influenciam também na produtividade dos adultos. Elas concluíram que, em excesso, a "vagabundagem mental" poderia até mesmo afetar o PIB e a economia, porque impede o foco no trabalho, diminuindo a produtividade.
O neurocientista húngaro questionou quais seriam os pontos positivos desses momentos em que nossos pensamentos derivam independentemente da nossa vontade. Para isso, ele e sua equipe recrutaram 135 pessoas para participar de testes online. Durante o exercício, uma imagem aparecia e desaparecia logo em seguida em uma das quatro janelas da tela. Os voluntários tinham que adivinhar em qual dos espaços vagos ela surgiria novamente.
Questionados sobre o foco e o surgimento de pensamentos aleatórios durante a atividade, 117 participantes relataram ter pensado em outros assuntos pelo menos uma vez. A pesquisa mostrou que os voluntários que divagaram durante o teste tiveram melhores resultados em comparação aos participantes que permaneceram focados, tentando entender, de forma consciente qual seria a sequência de aparecimento do desenho na tela.
A conclusão foi que sonhar acordado favorece a chamada aprendizagem implícita e as conexões cerebrais com o ambiente. “Você aprende mesmo sem perceber que está aprendendo alguma coisa. Nosso cérebro sempre está tentando descobrir modelos e estruturando o ambiente”, explica o neurocientista.
Segundo o pesquisador, a aprendizagem implícita propiciada por essas distrações pontuais facilita a aquisição de novas habilidades, como tocar um instrumento, praticar um novo esporte ou aprender um idioma.
Agora são necessárias mais pesquisas para determinar até que ponto esses momentos de divagação influenciam o processo de aprendizagem implícita apenas de forma positiva, ou se isso pode ser variável. É preciso diferenciar também, diz Dezső Németh o que acontece no cérebro durante a aquisição de conhecimentos totalmente novos e o aperfeiçoamento de competências já existentes.
O processo cognitivo que envolve a "vagabundagem mental" está conectado ao da consolidação da memória, que acontece durante o sono. Durante o estudo, a equipe do cientista húngaro também notou semelhanças entre esse estado mental e os observados no cérebro enquanto estamos dormindo, que ocorrem no córtex pré-frontal.
“Esse processo cerebral está conectado ao fenônemo que chamamos em Neurociências de replay. Isso significa que, se você está executando uma tarefa em um determinado momento e começa a divagar, seu cérebro inconscientemente vai continuar repetindo essa tarefa, e isso vai ajudar na consolidação da memória”, explica o cientista húngaro.
A hipótese da equipe, que ainda precisa ser comprovada, é que o cérebro simula as informações que estão chegando, e as reproduz como se estive rebobinando um filme. Durante esse processo, a aprendizagem provavelmente seria reforçada. É preciso também investigar, diz o pesquisador, como as emoções envolvidas nos pensamentos que surgem enquanto estamos ocupados interfereria nesse processo.
O farmacêutico francês Guillaume Brachet, 36 anos, criou uma start-up para testar um tratamento que poderá frear a evolução da doença. Os testes com humanos estão previstos para o próximo ano, diz o jovem cientista, que conta sua história no livro "Parkinson aos 30 anos", que será lançado na França no próximo dia 27 de março.
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Em 2018, aos 30 anos, Guillaume Brachet recebeu um diagnóstico improvável para um jovem de sua idade. Pesquisador e professor de Farmácia, casado, com uma filha pequena e em plena ascensão profissional, ele descobriu que tinha o mal de Parkinson, uma doença crônica neurodegenerativa progressiva, de evolução lenta, que atinge principalmente pessoas acima de 60 anos.
Adepto de uma vida saudável e praticante de caiaque, entre outros esportes, Guillaume, que vive em Tours, no oeste da França, buscou entender por que desenvolveu a doença de maneira tão precoce. Desde o início, ele nunca se conformou com as poucas opções terapêuticas existentes – a patologia é tratada principalmente com moléculas a base de dopamina, que ajudam a controlar os sintomas mas não impedem a doença de se desenvolver.
Guillaume decidiu pesquisar sobre o assunto e descobriu na literatura científica que a combinação de dois medicamentos contra o diabetes, que já existem no mercado, tinha potencial para frear a evolução da doença. Ele então se dedicou a ajustar as doses para agir contra o Parkinson.
A aposta deu certo: sua ideia foi patenteada e a hipótese comprovada em laboratório, em testes in vitro e in vivo, ou seja, em animais. Para viabilizar a fase da pesquisa com humanos, ele criou em 2023 a start-up CXS Therapeutics. O objetivo era obter respaldo financeiro e logístico para os testes clínicos, que devem começar no próximo ano. Guillaume e sua equipe estão preparando o pedido de autorização para realizar o estudo com os voluntários – entre 150 e 200 participantes devem ser recrutados.
Caso os resultados sejam positivos, a expectativa é que até 2030 o tratamento esteja disponível para os pacientes. “Vamos ter que demonstrar o impacto significativo do tratamento nos parâmetros da doença, e traduzi-lo em algo mensurável e padronizado, como um biomarcador, para provar o efeito dessa combinação”, explicou Guillaume Brachet à RFI.
O cientista francês também decidiu contar a saga que vai do seu diagnóstico à descoberta de um possível tratamento em um livro, “Parkinson à 30 ans” ou “Parkinson aos 30 anos”, que será lançado no próximo dia 27 de março na França,
Na obra, ele descreve todos os passos que o levaram a aceitar o diagnóstico e buscar um outro tratamento que impede a evolução da doença, já que a dopamina apenas atenua os sintomas. Mas, alguns anos depois do diagnóstico, ele reconhece seus benefícios indiretos da molécula.
“No início eu me sentia frustrado porque não havia nada melhor disponível. Mas, no fim das contas, mudei um pouco de opinião, porque a única coisa que sabemos hoje que pode frear a doença é a prática da atividade física, o esporte”, diz.
“No fim, esse tratamento sintomático com a dopamina ajuda o doente a ser mais autônomo e o torna capaz de praticar uma atividade física para lutar contra a evolução da doença. Então, mesmo que o tratamento não atue diretamente no desenvolvimento de Parkinson, traz um efeito interessante e importante para o paciente”.
Após o diagnóstico, o cientista francês conta que teve um período de introspecção e desânimo, relacionado ao processo de aceitação da doença, que é irreversível. Mas deu a volta por cima e se envolveu em vários projetos e desafios. Sua meta é aproveitar seu tempo da melhor forma, enquanto ainda for possível, relata.
Em julho de 2024, ele virou notícia no país ao percorrer 631 quilômetros de caiaque em seis dias entre as cidades de Roanne, perto de Lyon, e Paimbouef, próxima de Nantes, no oeste da França.
“Senti a vontade de me engajar com tudo aquilo que estivesse à minha disposição contra a doença. E o esporte era uma das minhas armas. Ele surgiu como um desafio para organizar o crowdfunding necessário para criar a empresa e informar sobre a doença”.
Foi graças a essa e outras iniciativas que ele conseguiu captar cerca de € 400 mil para montar a CSX Therapeutics e testar o tratamento que pode mudar a vida de milhões de pacientes em todo o mundo. “O livro faz parte de tudo que eu realizei para ajudar a comunicar e ajudar as pessoas e transmitir um pouco de otimismo em relação ao que a Ciência e os médicos conhecem sobre a doença”, declara.
O mal de Parkinson se caracteriza pela destruição de uma parte dos neurônios que sintetizam e liberam a dopamina, um dos neurotransmissores cerebrais.
A acumulação de proteínas tóxicas para as células nervosas leva à inflamação do tecido cerebral. A doença gera vários sintomas, além dos motores, que são os mais conhecidos. Entre eles estão problemas de sono, depressão e desconforto digestivo.
Guillaume tinha poucos sinais e demorou para procurar um médico. Ele só marcou uma consulta após comentários feitos por amigos e parentes sobre sua maneira de se movimentar.
“Eu não tinha percebido ou reparado em alguma coisa, mas me disseram que meus movimentos estavam mais lentos. Também me falaram que eu tinha um pequeno tremor na mão esquerda, que eu tinha notado mas não me preocupava”, conta. “Minha filha era pequena e eu a carregava do lado esquerdo porque sou destro. Então não identifiquei nenhum sintoma mesmo e não levei a sério.”
Guillaume só decidiu ir ao médico após testemunhar o infarto de um homem, em quem ele realizou massagens cardíacas, quando almoçava em um restaurante, no centro da sua cidade. Ele conta que estar de frente para a morte o levou a se conscientizar da necessidade de procurar ajuda.
“Sabemos que há fatores de risco, e há riscos maiores se temos um doente na família, mas é impossível antecipar quem terá doença e quem tem fatores de risco. Há pessoas com doentes de Parkinson na família e que nunca terão a doença. Então temos fatores de risco, mas não sabemos como prevenir isso”, alerta.
Um levantamento feito em 2024 pela associação Santé Respiratoire France, a pedido da empresa francesa Murprotec, uma das maiores do setor, mostrou que a poluição em ambientes fechados é até nove vezes maior do que a atmosférica. A má qualidade do ar dentro de casa também é apontada como a responsável pela morte de 3,2 milhões de pessoas por ano, segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde). Mas este é um fato ignorado por cerca de 71% dos franceses.
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
De acordo com o pneumologista francês Frédéric Le Guillou, presidente da Associação Santé Respiratoire France, 272 pacientes que sofrem de doenças pulmonares e 38 cuidadores responderam a um questionário sobre a qualidade do ar dentro de casa.
O objetivo foi determinar o impacto da poluição doméstica nos sintomas dos entrevistados – dois terços deles eram mulheres, participam mais desse tipo de estudo porque geralmente são mais atentas à própria saúde, lembra o pneumologista. Os resultados mostraram que a população tem noção dos riscos que envolvem a poluição em casa, mas, na prática, toma poucas medidas para melhorar a situação.
Segundo Frédéric Le Guillou, 97% dos entrevistados estão conscientes de que a má qualidade do ar nos ambientes fechados tem um impacto na saúde respiratória e desestabilizam seus sintomas. Os participantes da pesquisa convivem com DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica), a asma, alergias, fibroses pulmonares, dilatações e cânceres dos brônquios.
“Os pacientes se preocupam com a qualidade do ar dentro de casa, principalmente porque todos já têm uma doença respiratória, mas 36% de suas moradias não têm ventilação mecânica controlada, a VMC”, lamenta o pneumologista. O sistema permite uma circulação contínua do ar e evita a umidade, fungos e bolor, prejudiciais para quem tem ou não problemas respiratórios.
A umidade continua sendo um dos principais fatores de riscos para esses pacientes, diz Édouard David, representante da empresa Murprotec, que encomendou a pesquisa. “É um fato que a umidade é um fator determinante na transmissão das doenças ou no desenvolvimento de uma patologia crônica”, diz.
O levantamento ainda mostrou que 43% dos pacientes já foram expostos à umidade dentro de casa. “Existe um trabalho de informação que deve ser feito junto aos pacientes. São pessoas que já convivem com um problema respiratório”, alerta Frédéric Le Guillou.
Ele lembra que a má qualidade do ar é responsável por cerca de 47 mil mortes prematuras na França e 20 mil novos diagnósticos de doenças respiratórias, dados ignorados por uma grande parte dos franceses. Este número é provavelmente mais elevado, já que os óbitos, frisa, estão relacionados apenas às partículas finas e ao dióxido de azoto.
“Existem diferentes tipos de poluentes que influenciam na qualidade do ar em ambientes fechados, que podem ser físicos, químicos e biológicos. O tabagismo dentro de casa é uma fonte de poluição, por exemplo, inclusive para aqueles que não fumam", cita.
Há também os produtos de limpeza, a poeira, os pelos dos animais que podem causar alergias "e a pintura dos móveis que liberam compostos orgânicos voláteis", além dos ácaros. "Sem contar o aquecedor, que é uma das principais fontes de poluição doméstica”, acrescenta o especialista.
A exposição a essas substâncias também pode desencadear doenças em caso de predisposição. Este é o caso da asma, das alergias e das bronquites. Pode também piorar patologias pré-existentes, que estavam controladas.
Alguns hábitos também ajudam a melhorar a qualidade do ar, como abrir as janelas pelo menos dez minutos por dia e evitar colocar roupas para secar dentro de casa, por exemplo. “Quando temos uma doença respiratória, temos ‘brechas’ nas mucosas e todos os poluentes penetram mais facilmente. Tudo isso deve ser levado em conta, além da predisposição genética às alergias”, conclui o especialista francês.
A fobia é o medo anormal de um objeto ou de uma situação. Algumas delas são mais conhecidas, como a claustrofobia, que é a aversão a espaços fechados, ou a aracnofobia, que é o medo das aranhas. Muitas delas podem afetar o dia a dia e devem ser tratadas, alerta a psiquiatra francesa Margaux Dutemple.
A lista de fobias existentes é longa e deve ser atualizada com frequência pelos psiquiatras. Algumas delas são inusitadas e geram dificuldades cotidianas para os pacientes. Este é o caso da nomofobia, por exemplo, que é o medo de perder o celular, ou dos ergófobos, que têm pavor do trabalho.
Há ainda quem tenha aversão aos micróbios, ao avião, às tempestades e até do fluxo contínuo de notícias na TV, sites e redes sociais: algumas pessoas simplesmente não conseguem, emocionalmente, gerenciar tantas informações.
As fobias desencadeiam o que os especialistas chamam de “submersão emocional”, impedindo os pacientes de reagir racionalmente. De acordo com a psiquiatra francesa Margaux Dutemple, o que diferencia o medo ou a apreensão da fobia é o nível de ansiedade do paciente.
“O medo é uma emoção normal. Mas a especificidade da fobia é que esse pavor ficará focado em um objeto ou situação particular. É isso que define o caráter específico da fobia”, explica Margaux.
As fobias levam os pacientes a evitar certas situações para evitar o pânico que elas desencadeiam. Esse evitamento é uma característica típica da patologia. De acordo com a médica francesa, geralmente as pessoas buscam ajuda quando esse medo impede ou atrapalha um projeto.
“Um exemplo típico é uma jovem que pretende ter filhos, mas tem hematofobia, que é o medo do sangue. Claro que todo o preparo durante a gravidez e o parto vai gerar uma forte ansiedade. É nessas horas, em geral, que o paciente busca ajuda”, exemplifica.
Existem diferentes categorias de fobia, explica a psiquiatra. Às vezes o pavor é focado em objetos ou situações específicas, mas existem também “medos generalizados”, associados a comorbidades psiquiátricas, como a síndrome do pânico, a ansiedade generalizada ou a depressão, por exemplo.
Muitas fobias também se originam no estresse pós-traumático, o que requer um tratamento adaptado. “A fobia mais frequente é a social, como o medo de falar em público, ou a agorafobia, que é o medo de espaços abertos, que se traduz no medo de não poder ser socorrido."
Segundo a psiquiatra, a causa da fobia não é um elemento essencial para a cura. O que é importante, diz Margaux Dutemple, é vencer esse medo se expondo a ele, adotando uma terapia específica, “sem provocar traumas no paciente”.
“De um modo geral, mesmo quando começamos a tratar a fobia tarde, podemos curá-la”, esclarece. Quem tem medo de altura e tem tontura, por exemplo, poderá subir em uma cadeira para aos poucos se habituar à situação.
“A terapia avança por níveis. No início simulamos situações onde o paciente terá só um pouco de medo, o que obviamente é variável de uma pessoa para outra. Alguns pacientes podem até ter dificuldade em ficar de pé em cima de uma cadeira", diz.
"Mas isso será feito durante vários dias, ou seja, o tempo que for necessário para que essa ansiedade vá diminuindo. Vou colocá-lo em cima da cadeira e passar progressivamente a um nível cada vez mais alto”.
A psiquiatra lembra que as fobias não provocam outros problemas de saúde, como a hipertensão, uma questão levantada por muitos pacientes, já que os sintomas físicos do medo incluem suores ou taquicardia. Essas sensações, entretanto, são pontuais.
De acordo com a psiquiatra, os problemas cardiovasculares estão associados ao estresse crônico, como demonstraram muitos estudos.
As mulheres têm duas vezes mais depressão do que os homens, segundo dados da Santé Publique France, a agência de saúde pública francesa. A vulnerabilidade feminina à doença está relacionada a causas ambientais e fisiológicas, explica a psiquiatra francesa Lucie Joy.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a depressão atinge cerca de 350 milhões de pessoas no mundo. “As mulheres atravessam períodos complicados, de grandes transformações hormonais, como a gravidez, a menopausa, e o período que precede o aparecimento da primeira menstruação, que também pode ser complicada”, explica a especialista.
“Os sintomas depressivos estão associados com frequência a essas mudanças na vida da mulher e isso faz com que algumas depressões graves sejam minimizadas”, afirma a psiquiatra francesa, coautora do livro “A Depressão Feminina: Desmistificar, Compreender e curar”, em tradução livre.
A depressão “de verdade” afeta o funcionamento cerebral e impede a ação de alguns neurotransmissores na transmissão das informações essenciais para o equilíbrio cognitivo, fisiológico e emocional, com consequências diversas e individuais.
Em casos moderados e graves, o uso de medicamentos é necessário, mas às vezes eles demoram para serem prescritos porque os sintomas femininos são banalizados, aumentando o risco de suicídio.
O transtorno disfórico pré-menstrual, por exemplo, que ocorre antes da ovulação, entra nesta categoria. Ele atinge 5% das mulheres e gera sintomas depressivos severos, que podem levar à hospitalização.
A biologia explica a tendência feminina à depressão, mas o funcionamento orgânico das mulheres não é a única causa da explosão do número de casos. A violência, a discriminação, a desigualdade de gênero e a falta de reconhecimento profissional também são fatores que afetam a saúde mental.
“É muito importante conhecer o mecanismo hormonal e fisiológico feminino, mas há também uma combinação de fatores socioculturais que devem ser levados em conta”, destaca a psiquiatra francesa.
Segundo a profissional, estudos mostram que as mulheres sofrem mais violência, conjugal ou não e têm um salário em média 24% mais baixo do que os homens. Elas também são responsáveis pela organização familiar e 71% das tarefas domésticas. Esse acúmulo de carga física e mental não contribui para a preservação da saúde mental.
“Tudo isso acaba se acumulando, o que explica por que a depressão é bem mais frequente nas mulheres. Esses fatores atuam em conjunto e se potencializam entre si”.
A associação da doença à tristeza também é um mito que confunde muitos pacientes. Na realidade, uma das principais características da depressão é a anedonia: a perda da capacidade de sentir prazer em atividades antes consideradas agradáveis.
O paciente é invadido por sentimentos negativos. Pode ter também agitação ou lentidão psicomotora, o que cria confusão. “É algo que vai muito além da tristeza, se manifesta de formas muito diferentes em homens e mulheres e em função do período que atravessamos.”
A psiquiatra lembra que a desinformação em torno da doença dificulta a vida dos pacientes. Ao longo da vida, as mulheres, por exemplo, estão habituadas a ouvir que os sintomas associados à oscilação hormonal, em diferentes fases, são passageiros e lidar com eles “faz parte da vida”.
“Só que isso não é possível no caso de uma depressão. “Quando estamos deprimidos mesmo, não podemos controlar. A depressão é uma verdadeira patologia, que deve ser tratada”, salienta. Ela cita como exemplo o suicídio gerado pela depressão pós-parto, como a maior causa de mortalidade materna na França um ano após o nascimento do bebê.
A depressão clínica não pode ser tratada apenas com técnicas de relaxamento ou terapia. Ela exige o uso de medicamentos adaptados – às vezes é necessário testar diferentes moléculas, e acompanhamento especializado.
Consultar um psiquiatra ou tomar remédios também pode ser considerado como uma fraqueza e isso muitas vezes impede o paciente de buscar ajuda. A hospitalização é outra etapa essencial para a cura e não é sinônimo de fracasso. A falta de informação de familiares e amigos que convivem com o paciente também pode ser nociva.
A psiquiatra lembra que os medicamentos não serão usados “a vida toda” e as doses aos poucos diminuem à medida em que os pacientes melhoram.
“A depressão altera as relações sociais, familiares e amorosas. Ela tem um impacto amplo. Se os sintomas são de leve a moderados, vamos propor psicoterapia associada a conselhos de alimentação e higiene de vida. Quando os sintomas são de moderados a severos e alteram o funcionamento, vamos propor um tratamento com um antidepressivo”.
Dados do Centro Nacional de Referência dos Meningococos mostram um aumento dos casos de meningites e de outras infecções causadas pela bactéria no país, após o fim das medidas sanitárias adotadas durante a epidemia de Covid-19.
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Segundo a agência de saúde francesa Santé Publique France, em 2023 foram notificados 560 casos de meningite meningocócica - um aumento de 72% em relação a 2022. Deste total, 44% estavam relacionados ao meningococo B, 29% ao W e 24% ao Y.
Esta alta é preocupante, pois a taxa de mortalidade de uma meningite bacteriana é de 10%, mesmo com um tratamento adaptado. Em média, a cada cinco pacientes, um terá sequelas graves, como explica o clínico-geral Samy Taha, pesquisador do Centro Nacional de Referência dos Meningococos do Instituto Pasteur, em Paris.
A doença, transmitida por gotículas e secreções do nariz e da garganta, como tosse, espirro e troca de saliva, ataca as meninges, três membranas que envolvem e protegem o encéfalo, a medula espinhal e outras partes do sistema nervoso central. Ela atinge em uma proporção maior bebês de menos de dois anos, adolescentes e idosos acima de 75 anos.
De acordo com o pesquisador francês, o distanciamento social e o uso de máscaras durante a epidemia diminuíram, de forma geral, a circulação dos micróbios, incluindo as bactérias que causam as meningites.
Houve também uma queda de 20% nas vacinações, que influenciaram a imunidade de parte da população. Cerca de 10% das pessoas carregam os meningococos nas vias respiratórias, lembra Samy Taha, sem desenvolver infecções, mas podem transmiti-los.
A alta de casos na França após a pandemia de Covid-19 atinge principalmente adolescentes e se explica por várias razões, como a vida social mais intensa e a circulação entre populações de faixas etárias diferentes.
“Há muitos fatores que entram em jogo. Mas é provável que, após o fim das medidas restritivas, as primeiras pessoas que retomaram a vida social, incluindo viagens ou outros grandes eventos, tenham sido os adolescentes e jovens adultos. É por isso que aumento de número de casos atingiu primeiramente essa faixa etária”, diz o pesquisador francês.
Segundo ele, após a pandemia de Covid-19, outros sorogrupos de meningococos, antes raros no território francês, se tornaram mais frequentes nessa população. “Essa é a grande novidade. Depois do fim das restrições relacionadas ao Covid, houve um aumento importante das meningites relacionadas ao sorogrupo W e Y, principalmente na faixa etária entre 15 e 25 anos”.
Como os dois sorogrupos provocam infecções graves, as autoridades de saúde francesas decidiram modificar o calendário e a recomendação vacinal na França. As novas regras entraram em vigor no dia 1º de janeiro. “O que mudou é que a vacina contra o sorogrupo C foi substituída pela tetravalente, que protege contra os sorogrupos A, C, W e Y. Ela será obrigatória, com uma dose aos seis e aos 12 meses", explica o pesquisador francês.
"A Alta Autoridade de Saúde também recomenda um reforço da vacina tetravalente para adolescentes entre 11 e 14 anos, e uma atualização no máximo antes dos 25 anos, com uma dose única. A vacina contra o tipo B, que era apenas recomendada, tornou-se obrigatória para os bebês, em três doses: aos três, cinco e 12 meses”, detalha.
Antes, os bebês se vacinavam apenas contra o sorogrupo C, que hoje circula menos na França - apenas oito casos foram registrados em 2022. O sorogrupo B ainda é o mais comum e representa mais de 50% das infecções.
Segundo Samy Taha, os sorogrupos W e Y provocam um número maior de infecções invasivas por meningococos consideradas “atípicas”, que são doenças diferentes das meningites. "Essas infecções, relacionadas aos sorogrupos W e Y, são mais letais e podem atingir o sistema digestivo e as articulações. São formas mais difíceis de serem diagnosticadas e, infelizmente, estão associadas a uma mortalidade maior, principalmente nas primeiras horas”.
Ela destaca que a meningite é apenas uma das formas de infecções graves provocadas pelos meningococos, apesar de ser a mais frequente. “Este é um trabalho de sensibilização que deve ser feito junto à população e aos profissionais de saúde. É importante ter essa noção”.
O pesquisador relembra ainda que é essencial também para pais e profissionais suspeitar de uma infecção invasiva diante de certos sintomas, que no início podem ser banais, como: pés e mãos gelados, febre alta, arrepios, intolerância à luz e ao barulho, dores musculares e nas articulações.
Muitos vírus estão por trás desses incômodos, mas em função do estado geral do paciente, a infecção pelo meningococo não deve ser totalmente descartada. No caso da meningite, existem outros sinais de alerta mais específicos, como rigidez no pescoço, dor de cabeça forte, vômitos, confusão mental e sonolência também devem alertar.
“As infecções invasivas causadas pelos meningococos são mortais sem tratamento. E mesmo se tratadas corretamente, com antibióticos e outros cuidados recebidos no Pronto-Socorro e nas UTIs, elas continuam apresentando uma taxa de mortalidade de 10%, com sequelas graves, neurosensoriais ou que levam a amputações. A melhor maneira de se proteger é a vacinação”, alerta Samy Taha.
Fumar na adolescência pode favorecer o consumo de outras drogas, aumenta o risco de dependência e também afeta circuitos cerebrais que ainda estão em desenvolvimento. Essas são algumas das conclusões de um estudo recente realizado pela neurobiologista americana Lauren Reynolds, no laboratório Plasticidade do Cérebro do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica), situado no 5º distrito de Paris.
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
O centro é dirigido pelo pesquisador francês Philippe Faure, que supervisionou as experiências com camundongos expostos à nicotina. Os cientistas realizaram testes eletrofisiológicos, que mapeiam o sistema elétrico cerebral e a atividade dos neurônios, para comparar como a substância agiu nos cérebros dos animais adolescentes e adultos.
Como os animais crescem rápido, a transição pôde ser acompanhada em detalhes no laboratório. O objetivo era entender como o circuito dopaminérgico - conhecido como sistema de recompensa, reagia à substância.
Durante a experiência, os pesquisadores constataram que a exposição dos camundongos à nicotina na adolescência interrompia o desenvolvimento desse sistema cerebral, que processa informações relacionadas ao prazer, satisfação e motivação, por exemplo. “Foi a partir daí que percebemos que os circuitos da dopamina permaneciam no mesmo estado, como se tivessem sido ‘congelados na adolescência, explicou a pesquisadora americana à RFI.
De acordo com o cientista francês Philippe Faure, a primeira etapa da pesquisa consistiu em caracterizar o funcionamento cerebral dos camundongos. “Há uma transformação na adolescência, que envolve várias mudanças, e o estabelecimento de alguns circuitos cerebrais envolvidos na transição para a idade adulta", diz." Se um adolescente for exposto à nicotina, a evolução cerebral será interrompida”, reitera.
No final do estudo, a equipe também percebeu que era possível reverter a situação. “São experiências restritas aos camundongos, mas que permitem validar a hipótese que é possível restaurar o funcionamento de alguns circuitos importantes para assegurar a transição para a fase adulta.”
Esse é um aspecto importante, ressalta, porque “esses circuitos estão envolvidos nas decisões e na maneira como o indivíduo vai gerenciar sua relação com as drogas”, por exemplo. A pesquisa demonstrou que um adolescente que fumou terá uma propensão maior à dependência química, caso experimente substâncias psicoativas. Ele será também mais sensível à nicotina se retomar o tabagismo na idade adulta.
“No sistema nervoso, temos circuitos especializados na avaliação e construção dos nossos comportamentos, que se moldam à noção de recompensa”, diz o pesquisador francês. “A recompensa é tudo aquilo que está relacionado à ideia do que é positivo, e que gera comportamentos que visam obter o que consideramos como positivo.” Esse mecanismo cerebral, explica, está envolvido na motivação, no aprendizado e outros processos cognitivos.
O sistema de recompensa é complexo e dividido em pelo menos duas grandes partes, que gerenciam a ansiedade e a repetição de certos comportamentos, nocivos ou não. O uso da nicotina atrapalha o equilíbrio entre esses dois sistemas, que são diferentes em adultos e adolescentes, mostrou o estudo, A maneira como eles evoluem durante essa fase também determinará o comportamento individual.
“O circuito dopaminérgico é formado por pequenos núcleos localizados na parte profunda do cérebro e do tronco cerebral, que chamamos de neuromoduladores. Eles se caracterizam pelo envio de projeções e sinais para praticamente todo o cérebro”, explica o cientista francês.
Esse mecanismo, se afetado pela nicotina, também vai impactar outras regiões cerebrais, como a amígdala, no lobo temporal, e o núcleo accumbens, o “centro do prazer”, no córtex pré-frontal, duas estruturas envolvidas na tomada de decisões e na gestão do medo, por exemplo.
Os circuitos que gerenciam a dopamina, diz Philippe Faure, “são praticamente os últimos a se desenvolverem completamente no cérebro”. Caso esse processo for interrompido, pode ter influência direta no comportamento.
Lauren Reynolds lembra que, independentemente dos resultados da pesquisa, a adolescência e as experiências decorrentes desse período intenso na vida de um ser humano são essenciais para o cérebro. “Esses comportamentos levam o adolescente a interagir com seu meio ambiente e enfrentar as consequências de suas escolhas. É um período instrutivo para o cérebro de qualquer espécie”, conclui. “Não é porque o cérebro dos jovens não é maduro o suficiente que isso os torna incapazes de tomar uma decisão. Não concordo com essa ideia”, completa Philippe Faure.
Como antecipar e prevenir futuros casos de depressão ou ansiedade que podem afetar a saúde mental dos adolescentes? Este é o objetivo do estudo IMPROVA (Intervention Enhancing Mental Health in Adolescents), financiado pela União Europeia e criado por um grupo de cientistas europeus. A plataforma de saúde digital visa identificar fatores que influenciam o bem-estar dos jovens e detectar perfis propensos a desenvolver doenças mentais.
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
A ferramenta está em fase de testes desde setembro e o projeto é liderado pela pesquisadora francesa Maria Melchior, do Instituto Pierre-Louis de Epidemiologia e Saúde Pública, em Paris. O objetivo é que, dentro de alguns meses, a plataforma possa ser acessada gratuitamente pelo computador, celular e tablet.
Segundo ela, a equipe recrutará cerca de 12 mil alunos do Ensino Fundamental e Médio em escolas na França, Espanha, Romênia e Alemanha para testar o dispositivo.
Os participantes deverão responder a um questionário sobre sua saúde mental no início e no fim do ano letivo. Um outro grupo sem acesso à plataforma também terá acesso às questões, para que os cientistas possam comparar as respostas.
O modelo, utilizado por profissionais da saúde, analisa cinco "dimensões psicológicas", que englobam problemas emocionais, nível de isolamento, agressividade, hiperatividade, falta de atenção e concentração, além de empatia.
A ferramenta traz ainda conteúdos que esclarecem dúvidas sobre a saúde mental e propõe exercícios que ajudam na gestão do estresse ou do sono - fatores conhecidos pela influência negativa no psiquismo dos jovens.
Segundo a pesquisadora, estimativas mostram que os adolescentes passam em média 10 horas por dia no celular. Esse isolamento virtual se explica pela diminuição do contato com os amigos na “vida real”, típico da nova geração hiperconectada.
Uma das consequências é que muitos jovens acabam abandonando atividades esportivas ou artísticas, antes consideradas prazerosas, o que contribui para a solidão.
Maria Belchior explica que a plataforma não visa obter um diagnóstico, mas dar uma visão global do bem-estar do usuário e apontar possíveis riscos para a saúde mental.
“Só o fato de fazer perguntas e querer saber como eles vão já vai ajudá-los, nem que seja um pouco, a desbloquear a expressão de certas emoções”, explicou a epidemiologista francesa à RFI.
Essa conscientização pode incitar alguns dos jovens a buscar ajuda, dentro escola ou fora dela, o que concretamente já ocorreu, explica. Para isso, linhas telefônicas específicas e endereços úteis também podem ser consultadas na plataforma.
O projeto também propõe um site paralelo para professores e pais, que visa difundir informações sobre os problemas psicológicos mais comuns vividos pelos adolescentes e os fatores de risco, como a exposição ao bullying e as dificuldades de relacionamento, por exemplo.
“A ideia é informar melhor os pais e as pessoas que trabalham com os adolescentes sobre a saúde mental, e tentar mudar um pouco o ambiente em que eles vivem. O objetivo é sensibilizar os adultos sobre essas questões, para que eles saibam o que pode ser feito se o adolescente não vai bem”, diz a epidemiologista francesa.
O recrutamento dos adolescentes que participam da fase piloto na França foi feito em parceria com o Ministério da Educação e da Saúde. Em seguida, o projeto foi implantado nas escolas, em função do interessa das secretarias de Educação das regiões francesas.
As cidades situadas na periferia de Paris, por exemplo, rapidamente demonstraram interesse pela iniciativa. Para selecionar as escolas participantes, a pesquisadora francesa utilizou como principal critério a diversidade.
A preferência foi dada para estabelecimentos situados fora da capital, com alunos de diferentes classes e origens sociais. Maria Belchior destaca que as escolas em Paris não são apropriadas para o estudo porque são exemplos de “segregação”.
De acordo com ela, existem dois tipos de estabelecimento: aqueles frequentados por famílias ricas e de classe média e outros por jovens em situação mais precária. “O que nos interessa é tornar essa ferramenta acessível para todos, não apenas para aqueles que vivem em famílias onde a saúde e o desempenho escolar são importantes”, frisa.
Após a seleção das escolas com esse perfil, a equipe da pesquisadora apresentou o projeto nos estabelecimentos. Só na França, até agora 1.600 jovens se inscreveram para testar a plataforma.
Maria Melchior lembra que a pressão em torno dos jovens na França vem crescendo após as reformas de acesso ao Ensino Superior implementadas pelo Ministério da Educação.
“Eles têm a impressão de que qualquer nota baixa ou avaliação ruim vão gerar consequências negativas para o resto da vida. Tudo isso traz ansiedade e mostra como é necessário se questionar sobre a adoção de certas políticas públicas”, observa.
A ferramenta, reitera, deve ser um dispositivo a mais para os adolescentes, mas ela não substitui “uma terapia ou o contato com um humano”, conclui Maria Melchior. Ela lembra que o nível de ansiedade das novas gerações hoje é maior, e isso se deve em parte ao acesso generalizado à informação.
"O mundo em que vivemos é complicado e os jovens têm muito mais informações sobre isso, inclusive as crianças", diz. "Nós não falamos mais com elas da mesma maneira que falávamos com a geração anterior, que era poupada das discussões dos adultos. Isso é um fator que deve ser levado em conta, além de tudo o que envolve as mudanças climáticas”, conclui.
Os casos de câncer entre os jovens de 20 a 40 anos vêm crescendo de maneira contínua nos últimos 30 anos, segundo dados apresentados pelo Instituto francês Gustave Roussy, que busca ampliar sua atuação em pesquisa, prevenção e tratamento. O estabelecimento público, situado em Villejuif, nos arredores de Paris, é um dos maiores centros de luta de combate ao câncer do mundo e considerado uma referência em testes de novos medicamentos e terapias.
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Os cânceres do intestino, pâncreas e rins, por exemplo, se tornaram mais comuns nesta faixa etária, o que representa "um verdadeiro desafio para os cientistas", explicou à RFI o oncologista Fabrice Barlesi, diretor-geral do Instituto Gustave Roussy.
“Não entendemos exatamente o porquê deste aumento, mas há pistas. Alguns estudos mostram que pode haver uma relação entre o consumo de ultraprocessados e o câncer. Mas isso não significa que haja necessariamente uma causalidade, ou seja, uma relação de causa e efeito.”
O aumento impressiona os cientistas, afirma, e as perspectivas exigem ação imediata. Uma pesquisa internacional recente divulgada na revista científica British Medical Journal revelou que, entre 1990 e 2019, houve um aumento de 79,1% de certos tipos de câncer em pessoas com menos de 50 anos, em todo o mundo.
As conclusões de outro estudo, divulgado em dezembro de 2024 pela revista Lancet Oncology, prevêem uma alta de 12% de novos diagnósticos e mortes causadas pela doença nesta faixa etária, entre 2022 e 2050.
O fato é que a curva estatística que traduz o aumento dos casos entre jovens não se estabiliza ou registra queda nas últimas três décadas. Na prática, isso indica que, independentemente do método utilizado para analisar os dados, a alta dos cânceres nessa população parece ser uma realidade incontestável, explicou Fabrice André, diretor de pesquisa do instituto francês.
De acordo com ele, ainda serão necessários muitos estudos para confirmar cientificamente as hipóteses que explicariam o aumento do número de casos. "Isso pode levar vários anos”, observa. Confirmar as hipóteses ambientais que estariam por trás do adoecimento dos jovens adultos também é fundamental para adotar medidas de prevenção e evitar a alta de certos tipos de cânceres nas próximas gerações.
Com provas científicas, os Estados, com o tempo, seriam assim obrigados a adotar legislações mais protetoras. Foi o que aconteceu com o cigarro, um agente cancerígeno que, há 25 anos, era consumido sem moderação no espaço público. Apesar do lobby da indústria do tabaco, os governos com o passar das décadas não tiveram outra escolha, a não ser agir.
“Hoje nós não podemos dizer que conhecemos, de maneira científica, as causas dos cânceres nos mais jovens. Por isso é importante lançar estudos e coortes (NR: grupos de pacientes), para termos mais dados precisos e demonstrar, de maneira científica, com provas, qual é a causa desse aumento”, acrescenta Fabrice André. “Mas o fato é que tenho medo pelos meus filhos quando eles terão 30 anos”, alerta.
A frase, que chamou a atenção dos jornalistas presentes na coletiva de imprensa organizada pelo instituto na capital francesa, é mais um "choque de realidade" do que necessariamente alarmista, explicou o oncologista.
“Há duas causas possíveis para a explosão desses cânceres. Uma delas é a exposição mais precoce a fatores de risco para a doença. Por exemplo, acreditamos que a inflamação crônica pode favorecê-la. Desta forma, estar exposto de maneira mais precoce a uma inflamação poderia provocar um câncer”, diz.
“A segunda causa seria a exposição a novos fatores de risco. Neste caso, uma das hipóteses é o consumo de alimentos ultraprocessados, ou a exposição do jovem durante sua vida a agentes cancerígenos, por exemplo”, explica.
“Outra hipótese é a obesidade. As transformações metabólicas e a inflamação que ela provoca podem estar associadas ao câncer. Mas não temos provas científicas”, reitera. “O papel da poluição e dos microplásticos também deve ser estudado, mas, mais uma vez são apenas hipóteses. Lançar hipóteses é fácil, o mais complicado é validá-las. Por isso temos que definir essas causas e realizar estudos que nos permitirão coletar dados e amostras celulares", resume.
Outra preocupação, lembra, é o crescimento do número de casos de certos cânceres raros, como do intestino delgado, que estão aparecendo com mais frequência nesta faixa etária. E, mais uma vez, não há por enquanto nenhuma explicação científica para esse fenômeno, que intriga os pesquisadores.
Para validar hipóteses, são necessárias pesquisas com grandes grupos de pacientes de diferentes faixas etárias. Na França, estudos epidemiológicos sobre o aumento de certos tipos de câncer em jovens, por exemplo, já estão em andamento. Eles permitirão coletar dados detalhados sobre o modo de vida dos pacientes durante a infância. O objetivo é elencar fatores ambientais que estariam envolvidos no desenvolvimento da doença, utilizando recursos estatísticos e algorítmicos sofisticados.
Na segunda etapa, os cientistas deverão analisar especificamente os dados de grupos de pacientes que desenvolveram cânceres mais jovens. A meta é caracterizá-los e compará-los aos cânceres dos pacientes mais velhos para, em seguida, constatar em laboratório eventuais diferenças moleculares e celulares.
“Precisamos entender como esses cânceres aparecem. Será que existem especificidades relacionadas aos órgãos onde eles surgem? Será que decorre do envelhecimento do tubo digestivo, que tem características próprias? Existe um fator sistêmico, ligado a nosso sistema de defesa contra a doença? Ou será que existem outros aspectos que desconhecemos e, se for o caso, de que maneira podemos tratá-los?", questiona o diretor-geral do instituto, Fabrice Barlesi.
Neste contexto, o centro francês busca reforçar sua estratégia de prevenção personalizada, diagnóstico precoce e Medicina de precisão. O objetivo é proporcionar aos pacientes o melhor prognóstico possível, com qualidade de vida. “Esse é um dos desafios. Se um paciente de 40 anos tem um câncer e é curado, terá ainda muitos anos pela frente. Esses anos devem ser bem vividos”, frisa o oncologista.
O Instituto Gustave Roussy também será ampliado para facilitar os tratamentos e estudos clínicos. Para isso, estão previstos investimentos de € 53 milhões. Três projetos ilustram as metas nos próximos anos.
O primeiro, Yoda (Young Onset Digestive Adenocarcinoma), busca identificar os fatores envolvidos no aparecimento de cânceres digestivos em pacientes com menos de 50 anos e propor um plano de prevenção. No primeiro semestre deste ano, dois grupos de pacientes entre 20 e 49 anos e 65 e 70 anos serão selecionados para participar do estudo.
O segundo projeto visa desenvolver um teste diagnóstico para detectar a doença em mulheres jovens que apresentam um envelhecimento acelerado das células mamárias e correm mais risco de desenvolver um tipo agressivo de câncer de mama.
A terceira iniciativa visa otimizar a rapidez do diagnóstico e a proposta de tratamento. O dispositivo, conhecido como InstaDiag, já é aplicado há anos em mulheres com câncer de mama e agora beneficia outras patologias.
Há, ainda, outras iniciativas paralelas. “Temos também um programa chamado Interception, cujo objetivo é identificar, o mais precocemente possível, se o paciente tem um risco maior, que pode estar relacionado a seu histórico familiar ou a anomalias genéticas. Esse programa visa toda a população francesa”, completa o oncologista.
Outra ambição é dentro de alguns anos generalizar a biópsia líquida, menos invasiva, e que pode ser coletada com um simples exame de sangue, para monitorar metástases.
Há também a proposta de disponibilizar aos pacientes testes sanguíneos que detectam cânceres, assintomáticos, em estágios ultraprecoces, que normalmente não são alvos de campanhas de prevenção. Testes parecidos, que analisam o DNA do paciente, já estão disponíveis nos EUA, mas há controvérsias sobre sua eficácia.
Enquanto a Ciência avança para propor cada vez mais terapias e tratamentos que visam a cura, o diretor-geral do Instituto Gustave Roussy lembra que nunca é tarde para adotar algumas mudanças no estilo de vida que previnem a doença: 40% dos cânceres em geral podem ser evitados e estão associados ao tabagismo, consumo de álcool, sedentarismo e sobrepeso.
A França celebra nesta quinta-feira (23) a Jornada Mundial da Solidão. Segundo dados publicados em 2022 pelo instituto de pesquisa Ifop, 19% dos franceses se sentem sozinhos. O fenômeno atinge todas as faixas etárias e categorias sociais, mas a preocupação é ainda maior em relação aos mais idosos.
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
De acordo com um estudo do Insee (Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos da França), publicado em 2021, cerca de um milhão e meio de franceses com mais de 75 anos sofrem de isolamento social severo ou moderado. Este número corresponde a 12% da população nessa faixa etária.
O avanço da idade leva à diminuição dos vínculos sociais, principalmente após a aposentadoria. Com o tempo, o círculo de amigos também tende a ficar mais restrito e a família nem sempre está por perto. Além disso, os problemas de saúde são mais comuns e podem afetar a autonomia em graus diferentes.
Como prevenir a solidão que de uma forma ou outra caracteriza a terceira idade? Nos últimos anos, o governo francês e a iniciativa privada vêm se mobilizando para propor soluções subsidiadas que visam melhorar a saúde emocional dos idosos.
Um exemplo é o “Anjos da Guarda", projeto gerenciado pelo psicogeriatra francês François Santo. O serviço é proposto pela empresa francesa de teleassistência Tunstall Vitaris, gigante do setor no país.
A equipe do psicólogo é responsável pela gestão de cerca de 2,5 milhões telefonemas por ano. O objetivo diz, é "levar conforto aos idosos" e ajudá-los a lidar com a solidão e as emoções negativas que decorrem do isolamento.
“Como podemos prevenir a solidão? Na minha opinião, a solidão vivida pelos idosos não é uma questão apenas de envelhecimento, mas também de juventude. É preciso aprender a envelhecer e isso começa cedo: cuidando de si mesmo, aprendendo a viver com suas neuroses e trabalhando suas próprias questões de dependência afetiva”, resume.
De acordo com ele, é importante "aceitar sua própria vulnerabilidade" para, na terceira idade, “lidar mais facilmente com as perdas”. Esse preparo deve ser feito com antecedência, frisa o especialista francês, citando uma frase do general francês Charles de Gaulle.
“De Gaulle dizia: o envelhecimento é um naufrágio. Com frequência associamos o envelhecimento a essa noção, mas isso não é verdade, na minha opinião. Há, de fato, situações envolvendo pessoas idosas que são muito tristes, mas na maior parte do tempo, isso não é uma fatalidade", defende.
"A velhice é algo que se prepara. Envelhecer é bonito, amadurecer também, e aceitar sua própria vulnerabilidade faz parte. Muitas pessoas vivem bem o envelhecimento e a questão da solidão”.
Para o psicólogo francês, “a problemática do envelhecimento envolve uma sucessão de perdas. Aos 40 anos, se você perde um trabalho, pode achar outro. Mas se você está aposentado e não tem mais vida profissional, isso é uma verdadeira perda. Quando você está casado há décadas e de repente se torna viúvo ou viúva, isso também é uma perda irremediável”.
Essa “sucessão de perdas”, diz o psicólogo francês, afeta a autoestima. Os telefonemas da equipe, uma vez por semana, buscam então "levar um pouco de conforto" para os idosos que se sentem isolados. O objetivo é criar um vínculo social e antecipar possíveis problemas, como a perda total de autonomia.
Ele lembra que os atendentes do "Anjos da Guarda" são formados para antecipar situações de risco. Há idosos, por exemplo, que desenvolveram problemas cognitivos, como o Mal de Alzheimer, mas ainda continuam sozinhos em casa. Eles correspondem a 40% dos telefonemas tratados pela equipe.
Essa situação pode durar vários anos até a obtenção de uma vaga nos chamados Epahds, os centros para idosos franceses, que podem ser públicos ou privados.
A escolha de manter os mais velhos em casa ou não também dependerá das famílias e do custo envolvido. A mensalidade dos centros custa em média € 2000, o equivalente a cerca de R$ 12.500, mas esse valor pode ser bem mais alto. A qualidade do atendimento também é questionada em vários deles e muitos centros já foram até mesmo alvo de denúncias de maus-tratos.
Hoje as empresas de teleassistência francesas utilizam vários dispositivos tecnológicos para monitorar riscos, como uma eventual queda, por exemplo. Para tratar o problema sem intervenção humana direta, a assistência inclui detectores de movimento inteligentes.
“A inteligência artificial vai se conectar a um serviço de emergência, que ficará à disposição de pessoas com problemas cognitivos, por exemplo”, explica o especialista francês. Esta é uma alternativa a mais para remediar, na prática, o isolamento, diz o psicólogo. “Mas a dimensão humana é importante e nunca poderá ser substituída”.
Vários países, entre eles a França, vêm adotando medidas para controlar o acesso às redes sociais e proteger crianças e adolescentes, que podem ser induzidos a práticas violentas e até mesmo ao suicídio. Em busca de mais audiência, as redes utilizam algoritmos que adaptam o conteúdo em função dos dados e interesses do usuário. Mas esse efeito, conhecido como "filtro bolha", induz falsas percepções e reforça as próprias crenças e opiniões, afetando a capacidade de questionamento. O algoritmo do TikTok é apontado como um dos mais nocivos, mas não é o único.
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Em julho do ano passado, o governo francês promulgou uma lei que estipula a “maioridade digital” aos 15 anos, idade mínima autorizada para se inscrever nas redes. No Brasil e na França, celulares também estão sendo banidos das escolas. Neste contexto, como proteger crianças e adolescentes? Proibir o acesso adianta?
A RFI conversou com a professora Catherine Jousselme, uma das maiores pedopsiquiatras francesas, autora de diversos livros e estudos sobre a questão e que, ao longo de sua carreira, dirigiu vários centros infanto-juvenis no país. Para ela, não existe uma só solução, mas preconizações que envolvem a escola, os pais, governos e os profissionais da saúde.
“Vivemos em um mundo onde deveríamos tomar consciência do perigo de certas práticas, não só para a saúde, mas também para o psiquismo dos jovens. São necessários filtros que funcionem nas redes sociais e restrições em função da idade, o que não é o caso”, alerta.
Segundo a psiquiatra francesa, novos dados publicados no ano passado mostram que cerca de 45% de adolescentes entre 11 e 12 anos utilizam TikTok com frequência. Há vários riscos envolvidos, observa Catherine Jousselme. Os distúrbios do sono, por exemplo, são algumas das consequências da exposição excessiva às telas, principalmente de noite.
O uso do celular antes de dormir deixa o cérebro em alerta e aumenta a tentação do scrolling. Dormir pouco também aumenta a vontade de comer mais açúcar e desmotiva o adolescente a praticar uma atividade física, considerada como um dos elementos essenciais para o equilíbrio emocional.
“Essas ferramentas causam dependência. Sabemos que nosso cérebro tem um circuito de tratamento da imagem que é bem mais rápido do que o circuito que gerencia a linguagem e a reflexão”, explica. Para gerar essa dependência, redes sociais como TikTok se baseiam em um sistema algorítmico próprio e tóxico, com uso inapropriado dos dados, ressalta.
Essa ausência de filtros faz com que imagens de extrema violência estejam ao alcance dos jovens de maneira ininterrupta. Alguns vídeos trazem até mesmo o “passo a passo” de como se suicidar, exemplifica Catherine Jousselme, “o que é, obviamente, gravíssimo”.
Infelizmente, em boa parte dos casos, os pais ignoram que esses vídeos estejam acessíveis e tenham sido consultados pelos filhos. Por curiosidade ou impulso, ou sugestão de amigos, os adolescentes muitas vezes não resistem a clicar em imagens, que geram, nas palavras da psiquiatra, “sideração psíquica”.
Em adolescentes vulneráveis, haverá uma tendência a buscar conteúdos de extrema violência, que criem uma identificação com seus próprios traumatismos. Essa exposição frequente à crueldade sem limites compromete o desenvolvimento da empatia, explica a pedopsiquiatra, e desencadeia comportamentos violentos.
O consumo ininterrupto do conteúdo gerado pelas redes torna os jovens presas fáceis. Esse risco cresce na adolescência, um período marcado por transformações e incertezas.
“Se você assiste a vídeos sem parar durante duas ou três horas, seu cérebro não ativará seu sistema de reflexão. Ele estará o tempo todo focado no imediatismo provocado pelos circuitos que gerenciam o tratamento da imagem, que se ativará de forma permanente, sem nenhum senso crítico”, afirma a especialista.
“O jovem pode ser influenciado, se fechar, não conversar mais com seus pais sobre aquilo que está vendo. Eles então continuam assistindo conteúdos violentos, que vão aumentar seu mal-estar, sem filtro”, alerta. “Se por acaso, por azar, nesse momento a pessoa está passando por um momento difícil, como o divórcio dos pais, esses vídeos podem induzir alguns deles ao suicídio, sobretudo na adolescência”.
Segundo a psiquiatra, a maneira como esses adolescentes vão reagir aos conteúdos violentos é diferente e varia em função de como a família alertou para os riscos, do controle parental e dos traumas vividos.
Manter o diálogo aberto e um bom relacionamento com os pais é fundamental para evitar situações trágicas, lembra a pesquisadora francesa, mas não é uma garantia, o que torna ainda mais necessária a regulação das plataformas.
Na adolescência, dois sistemas cerebrais se desenvolvem, mas de maneira assíncrona. Um deles é o límbico, que gerencia, entre outros aspectos, o apetite, o desejo e o prazer. Ele "amadurece" mais rápido do que o circuito ativado pelo córtex pré-frontal, responsável pela conexão com outras áreas do cérebro e pela planificação, o estabelecimento de metas, estratégias e tomada de decisões.
Segundo a psiquiatra, como esses dois sistemas não se desenvolvem de maneira simultânea, o cérebro de todos os adolescentes está “naturalmente em desequilíbrio”, mesmo que não haja dificuldades particulares.
“O adolescente quer tudo na hora, pensar menos e agir mais. Cabe aos pais lembrar que a reflexão é importante. Mas se eles dispõem de ferramentas, sem nenhum controle, que estimulam o inverso, se tornarão mais dependentes das telas do que os adultos” - e também mais propensos a atos violentos.
A superexposição às telas e a ativação frequente do circuito que gerencia as imagens traz consequências cerebrais concretas. Elas vão solicitar a parte mais rápida e intuitiva do cérebro e o mecanismo de consolidação das informações na memória a longo prazo ficará em segundo plano.
Os circuitos usados na capacidade de aprendizagem, de julgamento e de crítica acabam, desta forma, sendo pouco mobilizados, simplesmente porque “tudo vai rápido demais”, diz a psiquiatra. O sistema intuitivo acaba prevalecendo.
“O movimento do olho para o polegar em direção à tela do celular é tão rápido que o córtex pré-frontal, a estrutura que regula a atividade cerebral, acaba sendo mobilizada para outra função, que é a de tomar decisões o mais rápido possível”, explica.
O consumo irrestrito e ilimitado de conteúdos violentos nas redes é apontado como uma das causas da explosão dos casos de depressão, ansiedade e outros distúrbios mentais entre os jovens de menos de 20 anos, lembra Catherine Jousselme. Mas ela e outros profissionais da saúde concordam que "diabolizar" as telas e as redes sociais e proibir totalmente o acesso não é a melhor solução. Pelo contrário.
“As telas não devem ser diabolizadas. Mas a exposição permanente, no início da adolescência, a conteúdos nas redes sociais que não são filtrados, e possibilitam o acesso a cenas traumáticas, que mesmo nós adultos não podemos suportar, não é aceitável”. Segundo ela, o único caminho possível é explicar para os adolescentes a importância das ferramentas digitais, lembrando de seus riscos e limites.
A pedopsiquiatra recomenda dar o primeiro celular, sem acesso a internet, por volta dos 11 anos. Aos 13 anos, a internet só deve ser utilizada em casa e acessada pelo wifi com controle parental. O primeiro contato com as redes sociais só deve acontecer, no mínimo, aos 15 anos, com acompanhamento.
O diálogo e os limites de consumo devem ser mantidos e as eventuais tensões com o adolescente não devem desencorajar os pais. Além disso, os pais e os próprios jovens devem se informar mais sobre o funcionamento cerebral na adolescência.
"O cérebro entre 0 e 15 anos não é o mesmo. Se ele só ativar o sistema intuitivo, ficará mais difícil desenvolver outras funções necessárias ao planejamento e análise na idade adulta", reitera.